Mais de um século atrás, no inside do Ceará, as árvores da Serra da Aratanha foram derrubadas para dar lugar a plantações coloniais. Quando as fazendas fecharam, a floresta foi aos poucos retomando seu espaço. E agora, graças aos esforços de biólogos para translocar espécies ameaçadas, as aves também estão voltando à Aratanha.
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Numa manhã fria de junho, uma picape Toyota Hilux branca acelerava aos trancos e barrancos por uma floresta densa no inside do Ceará, como se fosse um carro em fuga. Sentada ao lado do motorista, eu segurava duas sacolinhas de pano que balançavam a cada curva da estrada pedregosa sem fim. Cada sacolinha guardava uma carga preciosa: um passarinho. Eu torcia para que eles não estivessem tão ansiosos quanto eu.
Dois estudantes de graduação da Cornell College, da turma de 2026, Lorena Patrício e Brian Hofstetter, chacoalhavam no banco de trás, também a equilibrar bolsinhas de pano com as criaturas. Em voz alta, pensei como elas estariam lidando com tamanha aventura.
“Provavelmente acham que foram engolidas”, disse Hofstetter.
Fora isso, mal quebramos o silêncio dentro da picape durante a subida da serra de 30 minutos, o trecho remaining de uma viagem de duas horas. Nossa única missão period segurar as sacolinhas à nossa frente, sem deixá-las tocar em nada.
Os passarinhos eram chupa-dentes-do-nordeste — insetívoros rechonchudos e de plumagem marrom-alaranjada, cujos chamados agudos lembram o som de alguém chupando os dentes. Classificados como ameaçados pelo governo brasileiro, correm risco de desaparecer junto com os fragmentos remanescentes da Mata Atlântica nordestina, seu único lar.
Parte de seu nome científico, Conopophaga cearae, é uma homenagem ao Ceará, onde eles foram encontrados por naturalistas no começo do século 20. Ainda que o estado seja famoso pelas praias paradisíacas, dunas e manguezais, corríamos em direção a um mundo bem diferente, a meros 30 km do litoral. Nosso destino remaining period o topo da Serra da Aratanha, a uns 700 metros de altitude.
A estrada acidentada finalmente deu lugar a um caminho suave, com jardim aparado. À direita, um lago plácido synthetic brilhava sob o sol da manhã; à esquerda, uma mansão de madeira de três andares vigiava imponente a Fazenda Espírito Santo.
O nome da propriedade faz jus à região, envolta por um silêncio fantasmagórico típico das “florestas vazias”. O termo foi cunhado em 1992 pelo ecólogo Kent H. Redford, da Wildlife Conservation Society, para descrever florestas neotropicais que parecem intactas, mas estão esvaziadas de grandes mamíferos e aves por causa do impacto humano.

Os chupa-dentes em nossas sacolinhas de pano vieram para ajudar a preencher esse vazio. Eles fazem parte de um programa ambicioso de rewilding (reselvageamento de áreas degradadas) que começou em 2022 com a reintrodução de outra ave, um periquito colorido chamado cara-suja, então considerado criticamente ameaçado.
A Serra da Aratanha é hoje um refúgio florestal do tamanho aproximado de Manhattan (Nova York), ou mais de duas vezes Fernando de Noronha. No século 19, não havia floresta nenhuma aqui, derrubada para dar lugar a plantações coloniais de café e cana-de-açúcar. Quando essas fazendas fecharam, a mata retomou o território. A fauna, porém, nunca voltou completamente, provavelmente por conta do isolamento de Aratanha.
“O acesso à Aratanha é horrível, e provavelmente de propósito”, disse o biólogo Fábio Nunes, 47 anos, da ONG Aquasis, que lidera o esforço de rewilding. “Hoje há apenas uns seis proprietários aqui, e eles não querem que as pessoas da cidade encontrem este lugar. Tem tudo para ser isolado. Para nós, é como um laboratório.”
Depois de três anos subindo e descendo a serra para repovoar a floresta com aves, Nunes acredita que o esforço está trazendo frutos. O silêncio finalmente está sendo quebrado nessa paisagem sonora tropical, e isso é só o começo.
Os primeiros resultados inspiraram a Aquasis a planejar a volta de outras espécies de aves e, eventualmente, até outros tipos de fauna.
“Isso aqui é um paraíso verde, ainda que vazio”, disse Nunes. “Think about quantos animais poderiam estar aqui.”


“Chupa-Dentes e Caras-Suja”
Numa trilha atrás do lago synthetic da fazenda, os chupa-dentes-do-nordeste foram preparados para a soltura. Eles haviam sido capturados em redes de neblina três horas antes pela equipe da Aquasis na Serra de Baturité, uma região a 60 km de distância com um passado semelhante a Aratanha e presente muito diferente.
À primeira vista, os passarinhos parecem discretos, até que notei a faixa branca marcante na lateral dos olhos dos machos, como um delineador exagerado. Nunes explicou que essas penas ficam eriçadas quando o chupa-dente defende seu território.
Os estudantes de Cornell montaram uma mesinha na mata e retiraram cuidadosamente os pássaros das sacolinhas para pesá-los e colocar anilhas de identificação. Para coletar DNA, Patrício assoprava a barriga do chupa-dente enquanto Hofstetter retirava com uma pinça uma pequena pena com base sanguínea.



Ao serem libertados, os passarinhos não perderam tempo desaparecendo na mata. Seus chamados brand se dissiparam, e a floresta voltou a silenciar. Por um instante, nós também ficamos quietos, provavelmente compartilhando o mesmo desejo: que eles consigam sobreviver e construir um novo lar em Aratanha.
Mas o silêncio durou pouco. Um bando de 20 periquitos-cara-suja, moradores de Aratanha desde a reintrodução em 2022, surgiu no alto das árvores para checar a movimentação. Com a algazarra de suas vocalizações estridentes, o ar se encheu de um barulho muito bem-vindo.
O cara-suja ganhou esse nome por causa das penas faciais castanho-avermelhadas que lhe dão um aspecto borrado, como se ele tivesse enfiado a cara num balde de vinho. A reintrodução feita pela Aquasis foi um tremendo sucesso, e a população de periquito-cara-suja em Aratanha dobrou em poucos anos graças à reprodução pure.
Com caras-suja e chupa-dentes agora habitando a outrora silenciosa floresta da Aratanha, pode-se dizer que a região finalmente abraçou sua reputação fantasmagórica. No entanto, ao notar os bicos curvos dos periquitos que parecem sorrisos marotos, o clima é outro. Aratanha e suas novas criaturas são, na verdade, um sinal de esperança.
A Aquasis planeja reintroduzir outras seis espécies de aves consideradas ameaçadas pelo governo estadual, incluindo o tucaninho-da-serra e o guaramiranga. Ambos, assim como os chupa-dentes e os caras-suja, possuem papéis importantes no equilíbrio do meio ambiente, como polinização, dispersão de sementes, controle de insetos e reciclagem de nutrientes.




“As aves frugívoras vão comer todos os frutos que hoje apodrecem no solo”, disse Nunes, explicando que as sementes passam intactas pelo trato digestivo e são expelidas nas fezes, ajudando a dispersão. “Vai ser um benefício enorme para a floresta. Sem fauna, a mata tende a perder resiliência e a ter uma composição vegetal simplificada.”
No grande laboratório que é Aratanha, ainda há espaço para muitas outras espécies. A ONG planeja reintroduzir também mamíferos, como a cutia — um roedor de médio porte — que ajudaria ainda mais na regeneração florestal.
“A cutia enterra as sementes para comer mais tarde”, contou Nunes, “e muitas das sementes esquecidas acabam germinando.”
Nunes sonha ainda com o retorno da onça-parda, da qual não se tem registros recentes na região, e do sapo criticamente ameaçado Adelophryne maranguapensis, que provavelmente também já se extinguiu em Aratanha.
“O trabalho da Aquasis é inspirador e único”, disse David Bonter, codiretor do Heart for Engagement in Science and Nature do Cornell Lab of Ornithology, cujo Experiential Studying Award apoiou as bolsas de verão de Patrício e Hofstetter para auxiliar os biólogos da ONG. “É um grande experimento que estão fazendo em Aratanha, construído em cima do sucesso dos periquitos. Fiquei impressionado com a qualidade do trabalho feito na conservação em campo.”

História de Duas Serras
As Serras da Aratanha e Baturité, a região vizinha onde os chupa-dentes foram coletados, compartilham um habitat único. São como ilhas verdes de florestas úmidas de altitude que flutuam acima dos arbustos secos das áreas mais baixas. É uma paisagem moldada ao longo de dezenas de milhares de anos.
Em tempos pré-históricos, quando as florestas amazônica e atlântica se expandiam, elas se encontravam no Ceará. Quando o clima ficou mais seco e as florestas se retraíram, as áreas de altitude mantiveram umidade suficiente para permanecer como fragmentos florestais. Enquanto isso, as baixadas ao redor se transformaram em caatinga, o bioma semiárido que cobre quase 90% do estado.
“As duas florestas se tocaram lá em cima e, por assim dizer, se beijaram”, disse Weber de Girão Silva, biólogo da Aquasis e renomado especialista em biodiversidade cearense. “E o resultado desse amor é um refúgio muito especial.”
“É o único lugar no planeta onde determinadas espécies da Mata Atlântica e da Amazônia se encontram”, continuou ele, citando como exemplos o Tangara cyanocephala, espécie atlântica, e o tucaninho-da-serra, espécie amazônica.
Ambas as serras de Aratanha e Baturité foram fortemente impactadas pela atividade agrícola colonial, mas Aratanha, sendo cinco vezes menor que Baturité, sofreu muito mais.
No meio do século 19, agricultores derrubaram árvores nativas para a construção naval e cobriram as encostas com plantações de café, cana, algodão, banana e maniçoba, uma árvore produtora de látex. No início do século 20, o solo estava exaurido e as fazendas desapareceram, expulsas por pragas, secas, falta de apoio governamental e êxodo de mão de obra.

Enquanto hoje Aratanha é tranquila e silenciosa, Baturité é agitada e cheia de atividades.
Suas estradas pavimentadas ficam congestionadas nos fins de semana, levando turistas até a charmosa Guaramiranga, principal vila de Baturité. A elite de Fortaleza vem em busca de temperaturas mais amenas, a apenas 100 km de distância. Em junho, início do inverno, fondue de queijo e chocolate quente eram servidos na praça da vila, apelidada de “Suíça do Ceará”.
Desde os anos 1990, a cafeicultura retornou a Baturité de forma sustentável, com os pés de café crescendo à sombra da floresta. Agricultores passaram a produzir pequenos lotes de grãos de alta qualidade, um movimento que fortaleceu o ecoturismo ao longo da Trilha do Café Verde.
Embora as montanhas de Baturité ainda abriguem uma rica fauna e flora, com levantamentos registrando 259 espécies de aves, biólogos temem pelo futuro dessa floresta sob crescente pressão imobiliária. Os sinais estão por toda parte.
Descendo pela serra, o biólogo Fábio Nunes apontava áreas queimadas ilegalmente para plantação de milho e capim para gado. Mais abaixo, víamos os arbustos espinhosos da caatinga avançando montanha acima. Para ele, o aumento no número de cascavéis encontradas na floresta é também indício de que a seca se aproxima. Algumas comunidades já dependem de caminhões-pipa.
“A gente não desistiu de Baturité, mas precisamos de estratégias”, disse Nunes. “Ainda há aves e animais em Baturité, e nada na Aratanha.”
Nunes acredita que a hoje intocada Aratanha pode servir de abrigo para muitas espécies ameaçadas em Baturité: “Aratanha é a única floresta úmida de altitude da região que não está sendo degradada.”

Chupa-Dente Encontra um Sapo
Cerca de 3.000 chupa-dentes-do-nordeste vivem em Baturité, segundo levantamento da Aquasis de 2024. Em junho, 28 desses passarinhos foram translocados para Aratanha e, por 40 dias, foram monitorados pelos dois estudantes da Cornell.
Antes de os chupa-dentes serem soltos no novo lar, Lorena Patrício e Brian Hofstetter instalaram minitransmissores de rádio VHF nas costas de cinco passarinhos. Os aparelhos foram comprados com apoio financeiro da Affiliation of Area Ornithologists e da American Ornithological Society.
A dupla também instalou oito gravadores acústicos automáticos em Baturité e seis em Aratanha, para comparar as paisagens sonoras. Os equipamentos foram doados pelo Yang Heart for Conservation Bioacoustics, da Cornell.
“Os gravadores em Baturité servem como controle”, explicou Patrício, enquanto os de Aratanha fornecerão dados sonoros de antes e depois da reintrodução. A esperança, diz ela, é ouvir a cantoria dos chupa-dentes durante a temporada reprodutiva (de novembro a fevereiro) em níveis semelhantes aos de Baturité.
Patrício, 23 anos, é brasileira de Botucatu (SP), enquanto Hofstetter, 22, é americano do Arizona e fluente em português. Os dois trabalharam lado a lado com a dedicada equipe de campo da Aquasis, formada por seis cearenses experientes.
O técnico Jonas Cruz, 29, usou seu conhecimento em comportamento do chupa-dente para capturar as aves em redes de neblina. Já a educadora ambiental Érica Demondes, mestre em bioacústica, ajudou a instalar e operar os gravadores.



Em janeiro, Patrício planeja voltar ao Brasil nas férias de inverno da Cornell para ajudar a Aquasis a procurar ninhos de chupa-dentes durante a temporada reprodutiva.
“Existe muito pouca pesquisa sobre translocações de insetívoros, então estamos aprendendo”, disse Patrício.
Extra Science in South America
Os chupa-dentes também enfrentaram seus próprios desafios. O primeiro passarinho liberado na Aratanha teve um remaining desastroso.
No terceiro dia após a soltura, o sinal do transmissor instalado no chupa-dente ficou completamente imóvel. Patrício e Hofstetter rastrearam o sinal até o buraco de uma grande rã-pimenta, que surgiu brevemente da toca exibindo a evidência: um fio metálico saindo de sua boca.
“Eu realmente queria meu transmissor de volta”, contou Hofstetter.
Depois de muitas buscas e escavações, a rã foi encontrada, e o transmissor foi recuperado de seu estômago, junto com os restos do passarinho.
“As coisas que fiz antes eram mais ciência pura; aqui é muito mais ciência aplicada. E eu gosto muito disso”, disse Hofstetter. “Tem sido muito significativo estar aqui.”
Para monitorar as aves, os estudantes usaram uma antena de telemetria emprestada pela Universidade Federal do Pará e passavam as noites na Fazenda Espírito Santo, propriedade do empresário Fernando Cirino Gurgel, um apoiador essencial do projeto.
A dupla ficou hospedada numa casinha simples no fundo do terreno. E apesar de estarem no meio da mata, ficaram impressionados com o silêncio incômodo de Aratanha.
“Em duas semanas, vimos apenas um bando misto. É perturbador”, disse Hofstetter.
O som mais alto que ouviam period quando Gurgel chegava para visitar a fazenda, de helicóptero.

Retorno Épico do Cara-Suja
Pelas vilas de Baturité, moradores apreciam os sons estridentes dos periquitos-cara-suja, que ecoam pelas copas das árvores. Quinze anos atrás, muitos nem sabiam de sua existência. A ave period considerada a espécie de periquito mais ameaçada das Américas, com uma população abaixo dos 250 indivíduos. Foi quando os biólogos da Aquasis entraram em ação para tirar a espécie da beira da extinção.
Fundada em 1994 por um grupo de universitários do Ceará, a Aquasis construiu um histórico impressionante de sucessos em conservação. A ONG começou com foco em mamíferos aquáticos que ocorrem no estado, como o peixe-boi-marinho e o boto-cinza, e depois expandiu para projetos de aves ameaçadas, incluindo espécies migratórias como o maçarico-de-papo-vermelho e o endêmico soldadinho-do-araripe [leia “Soldadinho do Araripe, Little Soldier of the Araripe”, Primavera 2018].
O Projeto Cara-suja começou em 2005 e ganhou força nos anos seguintes com apoio financeiro da Fundação Grupo Boticário. Fábio Nunes entrou para a equipe em 2010, vindo da ONG Associação Caatinga, onde coordenava a criação de áreas protegidas no semiárido. Aos poucos, ele viu o projeto crescer de dois para sete funcionários.


As principais ameaças ao cara-suja brand ficaram claras: tráfico ilegal de animais e falta de cavidades naturais para formação de ninhos, como ocos de árvores.
Para combater os caçadores, a Aquasis pressionou o governo estadual para criar o Refúgio de Vida Silvestre Periquito-cara-suja na vila de Guaramiranga, em Baturité, em 2018, que conta com um posto do Batalhão do Meio Ambiente da Polícia Militar do Ceará.
Uma campanha de fiscalização ajudou a mudar a mentalidade native, com apreensão pesada de aves e prisão de caçadores. Num único dia, cerca de 2.000 aves de espécies diferentes foram resgatadas.

Para resolver a escassez de cavidades naturais, a Aquasis iniciou a instalação de ninhos artificiais em Baturité. O projeto das caixas-ninho foi um sucesso histórico: a população de periquitos-cara-suja quadruplicou em 15 anos, chegando a mais de 1.200 indivíduos. O programa foi considerado “possivelmente o mais bem-sucedido caso de uso de caixas-ninho”, de acordo com um livro de 2021 da ornitóloga britânica e professional em psitacídeos Rosemary Low.
O cara-suja virou garoto-propaganda da região. Inspirou chaveiros, camisetas e até mesmo um out of doors de uma loja de calça denims na vila de Guaramiranga. Observadores de aves do mundo inteiro, especialmente da Europa e dos Estados Unidos, agora visitam Baturité para ver os famosos periquitos.
Nunes, pai de duas crianças e ex-professor de biologia do ensino médio, fez do trabalho com o cara-suja uma missão pessoal. Nos primeiros anos, chamava familiares e amigos para ajudar a instalar as caixas-ninho no alto das árvores. Uma vez, passou a virada do Ano Novo vigiando sozinho as caixas, com medo de que os fogos de artifício assustassem os novos moradores.
Naquela época, seu assistente de campo mais antigo, Bruno Lindsey, monitorava os periquitos circulando de ônibus pela serra, único meio de transporte disponível ao projeto.
“Há dez anos, os cara-sujas eram raros. Eu ficava dois meses sem vê-los”, disse Lindsey, 32. “Andar de ônibus certamente não ajudava.”
A situação melhorou quando o projeto recebeu apoio financeiro do Tropical Forest Conservation Act, uma lei do governo norte-americano que redirecionou parte dos pagamentos da dívida do Brasil com os EUA para esforços de conservação das florestas brasileiras. Com esse recurso, o projeto comprou um carro, depois uma moto, e contratou mais dois funcionários.
O monitoramento das caixas-ninho é essencial para garantir a segurança dos filhotes, tanto contra caçadores como outros tipos de invasores. As primeiras caixas foram infestadas por abelhas e vespas carnívoras, e despejá-las tornou-se o trabalho principal da equipe. “Tirávamos tanto mel das caixas que a gente brincava que ia abrir uma loja de mel”, disse Nunes.
Em 2017, o biólogo escreveu sua dissertação de mestrado na Universidade Federal do Ceará sobre o sucesso das caixas de madeira na reprodução do periquito-cara-suja. Ele constatou que os ninhos artificiais protegem muito bem os ovos e os filhotes, resultando em alta taxa de reprodução, com média de mais de sete ovos por ninhada.
Hoje, 250 caixas estão espalhadas por propriedades de Baturité, cujos donos se comprometeram a proteger os periquitos. No Sítio Sucupira, uma propriedade luxuosa nos arredores de Guaramiranga, o pôr-do-sol é o momento perfeito para observar as aves, quando elas retornam aos seus dormitórios.

Numa visita em junho, mais de 20 caras-suja se empoleiravam em uma árvore, rodeando uma caixa-ninho. Normalmente, sete dormem dentro de cada caixa, mas a equipe já viu até 30 periquitos acomodados juntos. Enquanto fotografávamos a cena, dois periquitos esticavam o pescoço pelos dois buracos da caixa, como se nos observassem com curiosidade.
“O cara-suja faz parte da minha vida. É uma grande honra ter ajudado o projeto”, disse Pio Rodrigues Neto, 72, magnata da construção e poeta nas horas vagas, proprietário do Sítio Sucupira.
Ele doou 50 caixas-ninho, dobrando a capacidade do projeto na época. Sua propriedade concentra a maior quantidade de caras-suja em um único native, graças às 10 caixas instaladas. Em 2025, 59 filhotes nasceram aqui.
Com a explosão populacional, a espécie conseguiu o feito raro de reduzir seu risco na Lista Vermelha da IUCN, saindo da categoria “criticamente em perigo” para “em perigo” em 2017. Emblem, o Projeto Cara-suja partiu para reintroduzir os periquitos em outros territórios, começando pela Serra da Aratanha, então praticamente vazia.

Voando Livre em Aratanha
“Aratanha” é um nome indígena para “bico de papagaio”, embora alguns digam que se refira a um tipo native de camarão de água doce. Seja como for, ambos estavam extintos na serra até Nunes liderar a reintrodução do periquito-cara-suja, com apoio financeiro dos espanhóis da Fundação Loro Parque e dos alemães da Sociedade Zoológica para a Conservação de Espécies e Populações (ZGAP na sigla em alemão).
“Foi muito arriscado, estávamos realmente muito tensos”, lembrou Nunes. “Quando os primeiros caras-suja saíram do recinto, foram para uma árvore aqui, depois para outra ali, e então voaram para longe e sumiram. Pensei que period o fim. Fiquei sem palavras.”
Uma hora depois, no entanto, eles voltaram. O chamariz period a alimentação suplementar deixada pelos biólogos do lado de fora do aviário. “Foi pura felicidade”, disse Nunes.
Em menos de um ano, os periquitos reintroduzidos já começaram a se reproduzir, usando as 15 caixas-ninho instaladas em Aratanha, e a buscar alimento sozinhos, sem necessidade de suplementação. Hoje, a população está em cerca de 90 indivíduos que, ao preencher o silêncio de Aratanha, também ajudam na dispersão de sementes de árvores como embaúba e gameleira, além de um tipo de pitaia nativa.
“O cara-suja chegou trazendo diversos serviços ecológicos de volta à Aratanha. A embaúba é uma árvore pioneira importante na regeneração de florestas”, disse Nunes.
“E a pitaia alimenta os filhotes. Dá para ver o papo deles cheio de sementes minúsculas. Esperamos um grande aumento dessa epífita agora que ela voltou a ter seu dispersor pure.”
Em junho, quando visitei Aratanha, o aviário estava vazio, mas os periquitos ainda viviam pelas redondezas.
Quanto aos chupa-dentes-do-nordeste, Nunes encontrou dois casais em novembro, quando fazia outros trabalhos de campo em Aratanha. A Aquasis planejava enviar uma equipe de biólogos em dezembro para um novo levantamento formal sobre a situação dos passarinhos reintroduzidos.
Enquanto isso, a floresta em Aratanha aguarda seus próximos moradores — provavelmente o tucaninho-da-serra e depois o guaramiranga. “No fim das contas, nunca se tratou apenas dos caras-suja”, diz Nunes. “Mas eles foram os abre-alas para muitas coisas boas que estão a caminho.”
